top of page
Buscar

A Degradação da Dignidade Humana no Haiti: Reflexões sobre o estado de espírito dos dirigentes (2011-2024) [1]

Fonte 1: La Dépêche / Fonte 2: CDN, 2023


A crise, que prevalece no Haiti nos últimos anos, me leva frequentemente a me refletir  - não apenas sobre as destruições e perdas materiais registradas (embora um inventário nesse sentido seja mais do que necessário) - mas também sobre o ‘estado de espírito’ e os ‘estados de alma’ do povo haitiano em geral. Ao observar imagens de infraestruturas (casas, prédios públicos e privados, ruas etc.) destruídas por gangues, ao ouvir os relatos de sobreviventes dos atos horríveis cometidos por esses criminosos, ao ver imagens chocantes ou vídeos que eles publicaram nas redes sociais para expor suas ações, e ao acompanhar as posições das autoridades haitianas nos últimos anos, surge sempre a mesma pergunta: Como/porque chegamos a esse ponto?

Essas duas questões me levam a refletir não apenas sobre o estado de espírito, as emoções da população pacífica, dos sobreviventes, dos torturados e dos desfavorecidos, mas também sobre o estado de espírito e as emoções dos representantes do Estado, bem como sobre o estado de espírito, as emoções dos indivíduos que organizam a oposição política no Haiti ao longo das últimas duas décadas, além da disposição mental dos criminosos violentos. Daí, a necessidade de organizar essa breve reflexão em quatro partes, que serão publicadas em momentos distintos: (1) Sobre “os estados de espírito” dos líderes do Haiti (2011-2024); (2) Sobre “os estados de espírito” dos aliados e ex-opositores dos líderes haitianos (2011-2024); (3) Sobre “os estados de espírito” dos criminosos violentos no Haiti; e (4) Sobre os estados de espírito das pessoas aniquiladas no Haiti (2011-2024).

Em janeiro de 2010, o Haiti enfrentou uma catástrofe sem precedentes: um terremoto que resultou em várias centenas de milhares de mortes, centenas de milhares de  desabrigados, de órfãos e de pessoas com mobilidade reduzida. No entanto, a situação alarmante causada pelo terremoto de janeiro de 2010 não impediu a realização das eleições programadas para outubro daquele ano, apenas 10 meses depois. No meu ponto de vista, essas eleições foram especiais, pois, pela primeira vez, dois cantores muito populares, Wyclef Jean e Michel Joseph Michel Martelly se candidataram à presidência. Embora, de acordo com as leis republicanas, a candidatura de ambos devesse ser anulada, o Conselho Eleitoral Provisório (CEP) da época rejeitou apenas a candidatura de Wyclef Jean e manteve a de Joseph Martelly. Quando, para surpresa de todos e todas, Martelly chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, eu me questionava: i) como e por que o deixou chegar tão longe?; e ii) se ele fosse eleito presidente, como seria o Haiti após seu mandato? Minhas preocupações estavam relacionadas à (i) sua falta de experiência administrativa e (ii) sua autoproclamação “bandi legal” (“bandido legal”). Essa preocupação me atormentava: se alguém que se autodenominava “bandido legal” - e que, durante sua carreira como cantor, não perdeu oportunidades de zombar do Estado e das instituições republicanas - fosse eleito presidente, o Haiti não se tornaria um “paraíso de bandidos”?

Pelo bem ou pelo mal do país, para a felicidade ou infelicidade dos haitianos e das haitianas, o autoproclamado “bandido legal” não apenas foi eleito presidente da primeira República Negra do Novo Mundo, mas também elegeu seu sucessor, o defunto Jovenel Moïse (conhecido como ‘nèg bannan nan’). Após o assassinato deste último, o autoproclamado bandido legal conseguiu se impor na governança do país. Até hoje, ele exerce grande influência na condução dos assuntos do país. Em resumo, sua ascensão ao poder em 2010 marcou o início de um reinado, uma política real, a dos ‘bandi legal’ ou dos bandidos no poder. Vale lembrar de seu álbum intitulado ‘Bandi legal’, lançado em 2008, cerca de três anos antes de ser eleito presidente, especialmente a canção intitulada “Bandi legal” na qual ele canta na introdução: ‘Bandi tou tan. Bandi legal yo ki rive. Bandi legal yo chèf lame… Bandi legal yo pran lari. Wi yo legalize.’ [Bandido sempre. Bandido legal está chegando. Bandidos legais são chefes de exército (Sweet Micky, 2008). Sim, os autoproclamados ‘bandidos legais’ de outrora finalmente chegaram ao poder, à presidência do país. Será que conseguiram concretizar seu sonho? Sua ascensão ao poder permitiu-lhe ‘legalizar o banditismo’, como o havia cantado três anos antes? Agora é hora de fazer um balanço. Os resultados estão aí, bem visíveis. Basta olhar para a situação atual do país para obter respostas a essas perguntas. Devemos nos questionar sobre o estado de ser, sobre os estados de espírito desses líderes que dirigiram o Haiti nas últimas décadas. Como vivem os líderes que estiveram no comando? Qual/como é a rotina deles? Sentem-se que seus deveres foram cumpridos? São felizes ou se sentem culpados pela situação atual? Orgulham-se de terem liderado o Haiti?”


Se considerar-se a situação atual do país e canção intitulada ‘bandit légal’ [bandido legal], um ex-dirigente como Joseph Michel deveria sentir-se orgulhoso ou deveria se vangloriar de ter feito um bom trabalho. Aparentemente, sua ascensão ao poder permitiu que ele concretizasse o sonho que se expressou claramente nessa canção: legitimar o banditismo. Pois, com a cumplicidade da chamada ‘comunidade internacional’, ele e seus aliados acabaram por organizar e institucionalizar o grande banditismo no país ao longo das últimas décadas.

Em um comunicado publicado em 20 de agosto de 2024, o United States Department of the Treasury  [Tesouro dos Estados Unidos]  anunciou que havia sancionado o ex-presidente por seu suposto envolvimento no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e por ser responsável pelo colapso da segurança e da situação política no Haiti. Isso ocorreu dois anos após o governo canadense também tê-lo sancionado pelas mesmas acusações. Seria essa uma boa notícia? Poderíamos comemorar essa notícia? Quais serão os impactos dessas sanções na situação atual do país? Não teria sido uma boa notícia se essas acusações não fossem de conhecimento público ou se esse senhor não tivesse sido acusado pela grande maioria da população pelos mesmos motivos? De qualquer forma, devemos nos questionar, não apenas sobre o estado de espírito desses haitianos que tiveram a honra de liderar o país, mas também sobre o estado de desolação de todas as camadas da sociedade haitiana.


[1] Texto 1.

 

Dieumettre Jean

Doutor em Estudos Literários

Tradução: Frantz Rousseau Déus

Doutor em Sociologia


 
 
 

Comentários


Fale conosco, queremos saber o que você pensa

Mensagem enviada!

bottom of page