A degradação da dignidade Humana no Haiti: Sobre os estados do espírito do(a)s aniquilado(a)s no Haiti (2011-2024) (II)
- preflexoeseopinioe
- 10 de jan. de 2025
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Atualizado: 10 de jan. de 2025

A degradação da dignidade Humana no Haiti: Sobre os estados do espírito do(a)s aniquilado(a)s no Haiti (2011-2024) (II)
Como vivem as pessoas devastadas - que perderam um ou mais dos seus familiares, que perderam todos os seus bens nas mais horríveis crueldades cometidas por gangues terroristas no Haiti nos últimos anos? Esta é a primeira pergunta que me vem à mente quando reflito sobre a situação do Haiti. E o desafio de tal interrogação são os contornos históricos que ela implica - contornos temporais (evidentemente). E sem querer se comprometer com muitos contornos que possam prejudicar o propósito geral das linhas a seguir, este texto parte do ano de 2010, como um marco histórico da gestação do "banditismo generalizado" que está em referência no país, para concluir com uma série de perguntas sobre os estados de espírito das pessoas aniquiladas nos últimos seis anos. Por fim, trata-se mais de fazer algumas propostas para os futuros líderes do país (digo futuros, porque os atuais líderes não têm se mostrado diferentes de seus antecessores).
2010 e a chegada da era dos "bandidos legais"
Não há nada de especial em afirmar que os grandes eventos sempre anunciam o fim de uma era e o início de outra, portadora de esperanças e de novidades. Em outras palavras, não há nada de particular em afirmar que foram os grandes eventos que marcaram grandes pontos de virada na história da humanidade e levaram a mudanças (às vezes profundas ou mesmo radicais) no âmbito do pensamento, bem como no âmbito socioeconômico, político e cultural. Foi precisamente esse princípio que ocupou a mente das pessoas no Haiti após o terrível terremoto de 12 de janeiro de 2010, que atingiu o país, causando a morte de centenas de milhares de pessoas, paralisando outras centenas de milhares e provocando a destruição massiva da infraestrutura do país. Nas ruas, na rádio, nas conversas comuns, muitas vezes ouvimos: nada será feito como antes, tudo (a política, os estilos de vida, os modos de construção, a convivência, etc.) será feito de maneira diferente . Esta nova era levou ao poder, no Haiti, um antipolítico, um autoproclamado bandido legal "bandi legal", Michel Joseph Martelly, conhecido como Sweet Micky, entronizado em 14 de maio de 2011.
Seis meses após tomar posse como presidente, em 15 de novembro de 2011, com base no "aumento dos casos de sequestro e sequestro por resgate, ataques armados em cascata contra instituições bancárias, assassinatos, linchamentos e ataques físicos contra membros da população na área metropolitana de Porto Príncipe, a Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH) publicou um relatório intitulado Deterioração da situação de segurança no Haiti: a RNDDH está soando o alarme ao observar que os criminosos operaram na "total impunidade, na luz do dia e com uma arrogância e autoconfiança incomparável" (- uma arrogância que marcou a marcha gangrenada que o país empreendeu com a chegada dos autoproclamados "bandidos legais" ao poder). Além disso, durante as campanhas eleitorais de 2010 e durante os primeiros meses de seu quinquênio , Martelly mostrou a mesma arrogância personificada que havia incorporado ao longo de sua carreira como cantor.
É por isso que, durante seu governo, foi constatada a instauração de uma arrogância sem precedentes (palavrões, insultos às mulheres, reivindicação de atos de corrupção, nepotismo) e um processo de "banalização do Estado". A banalização do Estado foi alcançada através da destruição do simbolismo do Estado, da destruição das estruturas de urbanização (semáforos, sinalização essencial para a passagem e ritmo do tráfego) e da criação de falsos partidos políticos. Assim, o "bandi legal" criou seu próprio partido político, PHTK, em 16 de agosto de 2012, 14 meses depois de ser eleito sob as bandeiras do partido político Repons Peyizan). A "banditização do Estado" e a "legalização do banditismo" no país foram implementadas: grupos de criminosos armados foram criados em todo o território nacional, armas de fogo de alto calibre foram trazidas e distribuídas em vários bairros populares desfavorecidos para garantir a sustentabilidade desse regime.
Com a cumplicidades múltiplas, com a força do dinheiro e das armas, monetizando milhões de haitianos que vivem em extrema pobreza com 1000 gourdes (equivalente a 50 reais) os PHTKistas e aliados conseguiram se renovarem, elegendo seu candidato presidencial, o falecido Jovenel Moïse, um número considerável de seus candidatos ao parlamento e aos municípios. Para continuar o projeto de "banditização do Estado" e "legalização do banditismo", eles também precisavam de juízes em todos os níveis do sistema judiciário. Se o reinado do "bandido legal I" com Martelly no comando teve o Sr. Lamarre Bélizaire como juiz de instrução para ajudar o regime a implementar seu projeto destrutivo, um juiz que, em uma paródia de justiça, fora das leis republicanas, libertou grandes criminosos dizendo-lhes ale pa fè sa ankò, [vá tranquilamente, não faça mais isso] o reinado do "bandido legal I", liderado pelo falecido Jovenel, pôde contar com um número maior de juízes de instrução para realizar seu projeto.
Em 2017, em Paris, o falecido presidente Moïse disse que havia sido forçado a empossar 50 juízes ‘corruptos’ no sistema judiciário. Forçado por quem? Seus mentores, os "bandidos legais"? Para qual missão? Legitimar o banditismo? Essa declaração não foi um voto de impotência diante de seus mentores? Uma maneira de dizer que ele foi pego entre a vida e a morte?
Em todo caso, o empossamento de juízes ‘corruptos’, a distribuição de armas de fogo de alta calibre em bairros populares, a corrupção em grande escala, a destruição de infraestrutura como semáforos constituíram bases sólidas para a implementação total do banditismo, da arrogância, da violência multifacetada, da criminalidade como método e estratégia de governança. Um método que começou a dar resultados palpáveis a partir de 2018, causando peyi lòk [país fechado], repetidos massacres, torturas, assassinatos, estupros, centenas de milhares de deslocados, etc.
Os massacres continuam, o número de aniquilados é contado por milhares
Em novembro de 2018, o país vivenciou o primeiro massacre da era de "Bandi Legal II", o Massacre de la Saline, no qual dezenas de pessoas foram assassinadas, dezenas de casas saqueadas e queimadas, dezenas de mulheres estupradas, dezenas de pessoas desaparecidas, sem mencionar as dezenas de deslocados, as dezenas de órfãos. Este massacre foi apenas o primeiro de inúmeros outros que ocorreram ao longo dos últimos seis anos, cujos dois últimos ocorreram respectivamente em Warf Jérémie, Cité Soleil entre 6 e 7 de dezembro de 2024, onde o conhecido terrorista Mikanò massacrou mais de 207 pessoas, de acordo com as estimativas de organizações de direitos humanos e o de Pont Sondé, em Saint-Marc, Artibonite, perpetrada na data 3 de outubro pela gangue terrorista Gran Grif, liderada pelo terrorista Wilson Ela, que deixou mais de 115 mortos, cerca de cinquenta feridos e várias centenas de milhares de deslocados.
Em suma, de 2011 até hoje, a situação de segurança só se deteriorou, os criminosos a quem devemos inquestionavelmente chamar de terroristas cometeram e continuam a cometer seus atos terroristas em paz com uma arrogância sem precedência, causando dezenas de milhares de mortes, centenas de milhares de desaparecidos, de desabrigados, centenas de milhares de órfãos, viúvas e viúvos, centenas de sobreviventes, de pessoas deslocadas, etc.
Não precisa dizer que não foi com o regime dos “bandi legal” [bandidos legais] que o banditismo nasceu no país. Antes, havia bandidos, grupos armados que praticavam casos de sequestro, sequestro por resgate, assassinato, estupro, etc. Não precisa dizer que esses atos de criminalidades (assassinatos, sequestros seguidos de resgate) foram cometidos principalmente no departamento do Oeste (Porto-Príncipe e região), e, isso, de maneira esporádica, velada e em cascata Mas, assim que o regime dos bandidos legais chegou ao poder, o crime não foi apenas praticado em grande escala (em todo o país) à vista de todos, mas também celebrado com grande satisfação. Foi sob o domínio desse regime que gangues criminosas se agruparam em organizações terroristas chamadas Viv ansanm e G-Pèp, cujas atividades incluíam assassinato, sequestro por resgate, saques, estupros, torturas, destruição de propriedade pública e privada, massacres repetidos e incêndios. Esses atos terroristas não só causaram milhões de vítimas diretas e indiretas no Haiti nos últimos anos, mas também causaram quase um milhão de deslocados internos (segundo dados da Organização Internacional para as Migrações, de outubro de 2024, que fala em mais de 700.000 de deslocados internos).
Desde 2018, as gangues no Haiti não apenas aterrorizam, assassinam, matam, estupram, torturam ou destroem infraestrutura (estradas, casas, prédios públicos e privados, escolas, hospitais, bibliotecas, lojas, etc.), mas, ao mesmo tempo, realizam live nas redes sociais - Facebook, Tik Tok - para transmitir seus crimes, expor seus arsenais (provindo do exterior, particularmente dos Estados Unidos, da República Dominicana), desafiando o Estado, ameaçando os cidadãos sob a cumplicidade das autoridades instituídas, deixando a população com medo e em estado de choque constante. O que assombra minha mente é justamente o medo e o sofrimento generalizado causados pelas gangues terroristas, resultado do que chamo de "banditização do Estado" ou "legitimação do banditismo", ao mesmo tempo em que questiono os estados de espírito das vítimas de atos de banditismo no país. Uma abordagem que provavelmente nos mergulhará em uma série de perguntas sem resposta, começando com "como".
Como dar sentido à vida de pessoas que perderam um ou mais de seus familiares nas mais horríveis crueldades? Como dar sentido às suas vidas? Como dar o gosto/desejo de viver aos sobreviventes, aos deslocados, às pessoas que perderam quase tudo o que as constitui como seres humanos? Como tratar e curar as feridas incuráveis em seu corpo e sua alma? Nessas perguntas "como" ramificam-se as perguntas "Quem"? Quem poderia (re)confortá-los? Quem poderia dar-lhes o gosto/desejo de viver? Políticos? Sociólogos? Psicólogos? Psicanalistas? Cientistas? Quem poderia tratar e curar as feridas incuráveis em seu corpo e sua alma? Médicos? Especialistas em saúde? Quem vai escrever a grande narrativa, retraçando suas aventuras, seus sofrimentos suportados? Quantas páginas esta narrativa conterá? Haverá heróis/heroínas? E as personagens serão corajosas ou tristes? Será que elas terão senso de humor? Terão força para viver? Terão coragem de enfrentar a realidade? Ah! Demasiadas perguntas...
Em todo o caso, ao apresentar esta pequena reflexão sobre a situação do país, esforço-me, por um lado, para manifestar minha indignação pela privação da dignidade humana no Haiti nos últimos anos e, por outro lado, convidar as futuras autoridades haitianas a fazerem tudo o que estiver ao seu alcance para que as pessoas aniquiladas pelos terroristas estejam no centro das suas agendas políticas. Eu disse autoridades futuras, porque aquelas que atualmente governam o país não têm [ou ainda não têm] se mostrado diferentes de seus antecessores imediatos; depois de mais de seis meses no poder, eles dão a impressão de que é a mesma coisa.
As futuras autoridades do país terão que recorrer a especialistas de vários campos de saber: psicólogos, sociólogos, demógrafos, geógrafos, advogados, romancistas, críticos literários, etnólogos, historiadores, antropólogos, etc. para fornecer respostas. Não se trata apenas de dar respostas, mas também de tomar conta das pessoas aniquiladas e dos seus descendentes, para tentar devolver-lhes o gosto pela vida, a alegria de viver apesar das feridas incuráveis.
Dieumettre, Jean
Doutor em Estudos Literários
Tradução: Frantz Rousseau Déus







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